sexta-feira, 24 de junho de 2016

A difícil arte de fazer crochê... digo, de ensinar a redigir um texto



Por Igor de Oliveira Costa
Faz um bom tempo que não escrevo. Um bom tempo que não me sento à frente do computador e coloco no papel (virtual) algumas linhas mais sérias sobre qualquer assunto. Os poucos contos que produzi já estão todos bem velhos e mofados. Os poemas, então, nem se fala. Sobram-me os textos mais formais, não literários, por assim dizer, mas, desde que terminei o mestrado, foram poucas as vezes em que me pus seriamente a produzir algo. Um artigo para o blog semiabandonado aqui, uma postagem de Facebook um pouco mais longa ali, uns pseudo textos por obrigações de trabalho e, pelo que me lembro, não muito mais.

As desculpas são sempre as mesmas: trabalho, afazeres diários, compromissos diversos, preguiça. No fundo, todas elas têm lá suas razões de ser, é verdade, mas a longa ausência vai crescendo e crescendo dentro da gente até que algo a faz estourar. E dessa vez foi um aluno. Bendito aluno! Isso não é uma ironia, ok? Deve ter sido mesmo abençoado pelos deuses, em que não creio, porque ele me trouxe de volta aqui e me trouxe de volta justamente para falar do ato de escrever. Vamos ao texto, então.
Como alguns aí sabem, sou professor. Mais do que isso, professor de produção textual – ou redação, se achar melhor. E, por isso, tenho a ingrata tarefa de pagar as contas tentando ensinar às pessoas como elas podem se tornar melhores redatoras. A tarefa é ingrata por muitos motivos – pelo modelo de educação em que estamos inseridos, pela quantidade de redações que tenho que corrigir semanalmente, pelas limitações de horário das aulas, etc. etc. etc. –, mas o principal deles é que, acredito, ensinar a escrever é tarefa impossível por si só.
Primeiro porque ensinar, como nos explica Sócrates, é impossível. As pessoas aprendem, é fato. E muitas vezes aprendem com a ajuda de um tutor, professor ou como queiram chamar, mas ele de fato não as ensina, ele apenas ajuda a descobrirem por si mesmas como as coisas são. Não há, portanto, ensino; apenas aprendizagem. E disso estou convicto! Um professor é apenas um instrumento que o aluno pode (ou não) usar para alcançar o conhecimento. Às vezes esse instrumento é bom e afiado; às vezes é meio tosco e enferrujado, mas, se um aluno quer mesmo chegar ao conhecimento, ele vai fazer de tudo para alcançá-lo. Aprender, portanto, é um ato individual, um empenho da vontade, e nada há que possa fazer um professor diante de um aluno que não queira aprender – ou porque não quer, ou porque não vê razões para isso, ou porque não deseja dedicar o esforço necessário à tarefa.
O aprender a escrever, então, é pior do que todos os outros tipos de conhecimento que a escola tradicional tenta inculcar nos alunos. Isso porque escrever é, antes de tudo, o desenvolvimento de uma competência prática e não o acúmulo de saberes conteudísticos (datas, fórmulas, regras, conceitos, etc.). Talvez por isso, o aspecto volitivo do ensino de redação se torne exacerbado. Assim, é fato que quem não quer escrever, não escreve. Nada há que se possa fazer para que essa pessoa escreva. E se for forçada a escrever por qualquer coerção, fará mal o que tiver que fazer.
E os nossos alunos, obviamente, não querem escrever. Não querem escrever porque não veem motivos para tal; porque seus textos são reduzidos a “receitas de bolos” e “redações modelo ENEM”; porque são escritos para “leitor nenhum”; porque receberão uma nota de 0 a 10 e não uma réplica digna aos seus argumentos na forma de outro texto; porque, enfim, a escola conseguiu esvaziar de qualquer sentido a tarefa de escrever. E qualquer tarefa sem sentido se torna um castigo. Aliás, para os gregos, o pior dos castigos, o mais cruel, foi aquele aplicado a Sísifo que, tendo enganado a morte, foi condenado a passar a eternidade a levar uma rocha para o alto de uma montanha, de onde ela caía sempre, e ele tinha que voltar para buscá-la. Eternamente! A mais vazia das tarefas. A mais desumanizadora. E a mesma que aplicamos a nossos alunos de redação. A eternidade de suas vidas escolares a produzirem textos que não terão público, sem saberem os motivos por que escrevem, as razões por que discutem tais ou tais temas. Verdadeiros Sísifos da escola moderna.
“Ora, não seja dramático, Igor! Um monte de gente escreve por obrigação, por dinheiro, com prazos apertados. Advogados, jornalistas, ghost writers...” Ok, entendo o argumento, mas mesmo esses “aceitam a tarefa”. Um jornalista sabe que se não tiver a notícia pronta no fechamento do jornal, irá perder o emprego; um advogado sabe que se não redigir a petição, perderá a causa; um ghost writer sabe que se não entregar as páginas combinadas, não terá dinheiro para o leite das crianças. Forçados ou não, todos eles estão comprometidos com a tarefa da escrita. Suas vidas, suas carreiras, suas finanças dependem disso. Assim, atribuem um sentido à tarefa de escrever, mesmo que o mais pragmático dos sentidos, e, por isso, querendo ou não, estão sempre motivados.
Os alunos, por outro lado, não conseguem atribuir esse sentido. Com suas regras de gramática normativa – nunca justificadas socialmente; suas notas inexplicáveis – o que diabos é “aprofundar o tema?”; seu tempo limitado – como escrever um texto de verdade em uma hora?; e suas punições e sanções constantes, o que logo internalizam é que o único sentido do ato de escrever é puni-los por existirem. Desmotivam-se da tarefa porque não entendem o que faz um bom texto e não entendem o porquê deveriam fazer um bom texto. Quando chegam ao Ensino Médio, estão “de saco cheio” de redação – e da escola em geral, porque ela funciona nos mesmos moldes –, tirando algumas espetaculares exceções que, sabe-se lá como, sobreviveram a esse moedor de criatividade humana.
O pior de tudo é que isso ainda é agravado por uma característica da própria produção escrita: escrever dá medo. E é claro que não poderia ser diferente, já que a escrita é uma maneira de nos expormos às críticas alheias. As ideias que defendo podem parecer estúpidas, o que faz de mim, para certas pessoas, estúpido. A linguagem que uso pode ser imprópria à situação, o que faz de mim, para muitos, alguém que não sabe se comportar de maneira adequada diante das demandas sociais. A maneira como organizo meus argumentos pode parecer estranha ou equivocada, o que faz de mim, para os críticos, um esquisitão que não sabe nem organizar as próprias ideias. A escrita, mesmo que o mais formal dos textos, revela muito de quem eu sou, de como penso, das coisas que sinto e que, muitas vezes, quero esconder.
Para uma criança e para um adolescente – e mesmo para um adulto – isso pode ser assustador, quer ele tenha consciência desses medos, quer não. E assim chegamos ao final da vida escolar com alunos nos dizendo que “deixaram de escrever” à medida que iam avançando academicamente. Por fim, chegam ao segundo ou terceiro ano apavorados com a redação do ENEM e pouco ou nada comprometidos com o desenvolvimento da própria escrita, exatamente o contrário daquilo que a escola deveria fazer.
Outro aspecto importante que leva ao abandono da escrita é a questão técnica. Graças aos românticos, disseminou-se a ideia do “gênio”, do “dom”, do “talento” para as artes em geral e para a escrita em particular. Como a escola não ajuda no quesito “motivação”, ou melhor, como a escola só atrapalha nesse quesito, os alunos têm enormes dificuldades com a redação, com o romper a barreira do papel em branco. E, como não conseguem rompê-la de imediato, acreditam que eles não têm o “dom”, que “essa tarefa não é para eles”, que “apenas alguns poucos são capazes”. Por isso, não escrevem.
A verdade, no entanto, é que quase ninguém – para não dizer todo mundo – consegue ser assim. A folha em branco é tão assustadora, para todos, que se tornou tema recorrente de grandes cronistas. Escrever um texto não é algo espontâneo, que acontece sem maiores problemas. É tarefa tão trabalhosa e detalhista que João Cabral a comparou a catar feijão e todo escritor conhece o adágio que diz que “escrever é cortar palavras”. Escrever, portanto, não é só jogar o que vier à mente no papel. Escrever é retirar coisas, reorganizá-las, complementar uma ideia, trocar um vocábulo dez vezes até encontrar um que se encaixe bem. Enfim, escrever é, na verdade, reescrever.
Para isso, exige-se, não “dom”, no sentido de uma inspiração sobrenatural ou de uma habilidade inata, mas técnica, no sentido de um conjunto de competências, um know-how, um saber tomar determinadas atitudes em razão de certas demandas específicas. Como o conceito é vago, vou tentar explicá-lo com um exemplo. Uma crocheteira, antes de iniciar um trabalho, está diante de uma demanda específica: produzir um touca, uma meia, uma colcha. Para realizar a tarefa, ela seleciona as linhas que considera mais adequadas para cada peça, decide o tipo de ponto mais útil para uma colcha de frio ou para um pano decorativo, e só então começa a trabalhar. E o seu trabalho envolve a precisão no aperto dos pontos, o manuseio correto da agulha, a rapidez no fazer o laço para um ponto simples, a localização adequada do ponto de arremate, etc. Essa artesã, portanto, sabe como fazer essas coisas. Talvez ela não saiba sequer explicar como o faz, mas ela sabe fazê-lo. E isto é o que basta! Essa é sua técnica. E ela certamente não é um dom. A crocheteira passou por um treinamento, às vezes autodidata, às vezes formal; às vezes rápido, às vezes demorado; às vezes quando era bem jovem, às vezes depois de adulta. Não importa, o fato é que ela adquiriu uma técnica do crochê.
Do mesmo modo como a crocheteira domina a técnica do crochê, também os escritores dominam a técnica da escrita. Alguns têm consciência dessa técnica – como um João Cabral, que construía suas poesias como quem constrói prédios, engenheiro que era –; outros, como a crocheteira, sem saber muito bem como o fazem. Mas todos deixam transparecer essa técnica quando têm seus textos analisados de perto. Olhando de perto para esses textos, podemos ver que são unidades articuladas altamente complexas que pretendem expressar intrincadas relações entre conceitos, ideias, argumentos, sentimentos, personagens, etc. Essas relações, obviamente, estão na mente do redator, mas não estão, necessariamente, no seu texto. Para que elas estejam no texto, é preciso articulá-las de uma maneira própria, organizá-las segundo estritas regras linguístico-gramaticais e segundo um jeito particular de dar ênfase, de produzir suspense, de fortalecer certos argumentos e enfraquecer outros. É essa técnica que precisa ser desenvolvida. Sem ela, o texto não existirá como tal, do mesmo modo que a colcha que está na mente da crocheteira não existirá – ou será muito tosca – se ela não tiver certo know-how da arte do crochê (diferentes tipos de pontos, de arremates, de formatos, etc.).
Adquirir essa técnica, no entanto, demanda trabalho, esforço, dedicação, suor, horas e horas de dores na coluna diante do computador. Se o aluno não for capaz de se comprometer com isso, não conseguirá escrever. E se a escola não for capaz de mostar a ele que deve se comprometer com isso, ele não conseguirá escrever. Contudo, nem escola, nem aluno, nem professor, muitas vezes, têm isso claro em suas mentes, o que, por outro lado, está claro para os “cursinhos pré-vestibuares” e seus alunos. Esses, extremamente comprometidos com seu aprendizado, visto terem um objetivo claro e urgente à frente, não têm qualquer problema com as aulas de redação para o ENEM. Aliás, se perguntam com frequência por que as aulas de redação da escola não eram como as do cursinho. Um dos motivos é que eles próprios mudaram. Agora, estão comprometidos com o próprio saber. E os cursinhos, preocupados com a aprovação em massa dos alunos, já que sua sobrevivência depende disso, transformam a complexa arte da escrita numa técnica única, pragmática, funcional. Com isso, compromisso e técnica, são extremamente bem sucedidos naquilo a que se propõem. Até aí, nenhum problema. O problema começa quando achamos que, como a escola não ensina a escrever e o cursinho ensina, a escola tem que ser transformada num cursinho, e que a redação da escola tem que ser a do cursinho.
Por fim, cabe ainda um último aspecto, extremamente relevante, para o desenvolvimento da escrita: escrever demanda conhecimento sobre o que se escreve. Talvez esse pareça um tanto óbvio, mas acho que é preciso destacá-lo porque a escola ainda não o entendeu bem, apesar de os cursinhos já terem feito essa descoberta há décadas, tanto que as aulas de redação são separadas em aulas “teóricas” e aulas de “discussão de temas”. Aulas de técnica e aulas de conteúdo, poderíamos dizer. Deixemos, porém, os cursinhos de lado um instante e voltemos ao foco da discussão.
A primeira observação que gostaria de fazer é que o conhecimento é necessário, mas não suficiente para um bom texto. Sem técnica de escrita, nenhum conhecimento pode virar um bom texto, como nenhuma vontade de fazer uma linda colcha vai me levar a produzi-la se eu não tiver a técnica do crochê. Por isso, não adianta estudar a fundo um tópico e saber tudo sobre ele e depois reclamar que você sabe tudo e por isso seu texto “não pode estar tão ruim, professor”. Sim, ele pode! E provavelmente está.
Um outro ponto relevante já levantado pelos especialistas na área de produção textual, mas esquecido pela escola, é que, se a produção de um texto demanda conhecimento do tema, então, ensinar a escrever não é – friso: não é – tarefa de um professor de redação. Ensinar a escrever é tarefa da escola como um todo. Como poderia um professor de redação ter melhores conhecimentos de política do que os professores que estudam esse campo em seus diversos apectos: geográfico, histórico, sociológico, filosófico? Afinal, o professor de redação é um profissional formado na área de Letras e com conhecimento na sua área – por exemplo, de como a língua é usada como mecanismo político, de dominação e opressão e coisas do tipo. O professor de redação não tem conhecimento de matemática ou física ou história ou filosofia ou o que quer que seja do mesmo modo como os professores dessas áreas têm. Assim, sua utilidade se resumiria a apenas fornecer uma técnica da escrita aos alunos.

 Isso, no entanto, é ilusório. O modo como se organizam os argumentos num texto no campo da matemática é diferente do modo como se organizam os argumentos num texto no campo da filosofia, ou do modo como se produz um diálogo ou um poema ou uma análise crítica de uma pintura. A técnica escrita está estritamente vinculada ao conteúdo do texto que se produz. A escola, no entanto, ignora completamente esse fato e coloca o ensino de redação nas mãos de um profissional que, com o tempo reduzido e sem as condições teóricas de ensinar a escrever, obviamente não conseguirá cumprir a sua tarefa, mas será cobrado por ela de todos os lados.
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