segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Plutocracia educacional

Por Igor de Oliveira Costa

Há alguns dias que tenho me debruçado sobre as notas do ENEM 2014 (Exame Nacional do Ensino Médio), recentemente divulgadas. Como professor, meu interesse era saber “o que faz diferença na nota do ENEM”, ou seja, quais aspectos daqueles disponibilizados pelo MEC são relevantes para uma boa nota na prova objetiva (deixemos a redação para uma outra hora). E a conclusão a que cheguei foi que, mesmo depois de uma década de mecanismos de inserção social, vivemos uma maldita plutocracia educacional.


Basta olharmos os gráficos para percebermos que o que mais importa para uma boa nota é o nível de renda dos alunos, sem mais. Pode-se até argumentar que outros fatores, como Estado, Rede de Ensino influenciam na nota, mas influenciam porque, em alguns estados e redes, a renda "puxa a média pra cima" e, como todos sabemos, a média é uma medida altamente influenciada pelos valores extremos.

Como mostra o Gráfico 1 (só clicar que ele cresce), o Estado em que você mora tem alguma influência na média da nota (região sul-sudeste – SP, MG, RJ, RS, PR e SC com médias mais elevadas; e estados da região norte-nordeste – AP, TO, AC, MA, RR, AM com médias mais baixas). Mas isso é irrelevante se comparado com o nível de renda, já que tanto nos Estados do primeiro quanto do segundo grupo, escolas com renda mais alta – pontos roxos e laranjas – têm notas absurdamente melhores do que as escolas com renda média ou média baixa – pontos verdes e azuis. E, nos Estados do Sul-Maravilha, a enorme quantidade de escolas com renda alta certamente leva a média pra cima. Então, não importa se você vive no Rio ou no Acre, se você for pobre, as suas chances de alcançar uma universidade, ainda mais uma universidade pública, são mínimas se comparadas às chances daqueles que têm dinheiro.
Gráfico1: Nota em função do Estado da federação.
Pontos e barras vermelhas indicam as médias e desvios padrão, respectivamente.
Outra questão quanto à nota estava ligada à rede de ensino e à sua relevância para a nota. Se olhamos o Gráfico 2 com rapidez, tendemos a dizer que estudar na rede federal ou privada provavelmente garantirá ao aluno uma nota melhor do que a nota que teria se estudasse em uma escola estadual. No entanto, as cores do gráfico nos mostram que, aqui também, o que manda é a renda. A grande maioria das escolas estaduais têm renda média  pontos verdes e azuis. Além disso, as escolas estaduais com renda muito alta e alta – pontos rosas e roxos – têm boas notas, enquanto escolas estaduais com renda média, média baixa e baixa têm notas baixas. E o mesmo raciocínio vale para as privadas: aquelas cujo nível de renda é maior têm melhores notas. E como a grande maioria das escolas ali se encontram nesse grupo, a média do grupo é maior. Não porque a escola é privada, mas porque a renda é mais alta. É assim também para o pequeno grupo das municipais e das federais. Então, não importa se você estuda numa escola pública ou privada, o importante é estudar numa escola cujo nível de renda dos alunos seja maior.
Gráfico 2: Nota em função da rede de ensino.
Mas esse é um ponto que me deixa angustiado: escolas privadas de renda baixa provavelmente têm poucas chances de fornecer boas condições escolares, de pagar bem a professores, etc. Mas escolas públicas, de renda baixa ou alta, supostamente têm essa possibilidade. Então, por que seriam as notas piores? Devido à situação sócio-econômico-cultural dos alunos? Devido aos problemas de desestruturação familiar, que, imagino, seriam maiores nessa categoria? Devido às condições financeiras de permanência/dedicação aos estudos?

Outro aspecto que foi por demais discutido nos últimos dias foi a questão da permanência do aluno na escola, já que muitas “pseudoescolas” criaram turmas especiais com alunos de alto rendimento para ficarem bem posicionadas no ranking da prova. Então, pensei que escolas com baixos níveis de permanência talvez tivessem notas melhores: isso até é verdade, mas em um nível quase insignificante (Gráfico 3). O que é importante, novamente, não é o nível de permanência, mas, de novo, o nível de renda. É claro que isso não invalida o argumento de que algumas escolas estão burlando o sistema, mas esse, a meu ver, é, no cenário global, o menor dos problemas: o grande problema é que a renda ainda é um entrave enorme a uma verdadeira inclusão.
Gráfico 3: Nota em função da permanência e da renda.
Esse entrave fica visível no gráfico da renda (Gráfico 4). Se olharmos bem, as colunas de renda “Muito baixa” e “Baixa” cabem inteiras embaixo da coluna de renda “Muito alta” (com uma honrosa exceção entre as de nível "Baixo"). Isso significa que a melhor escola que oferecemos aos pobres não alcança a pior escola que oferecemos aos ricos.
Gráfico 4: Nota em função da renda.
Que diabos de país é esse? Que democracia é essa? Que inclusão social estamos realmente fazendo? Que mudança de paradigma? Não mudamos nada. Nossa educação não permite aos pobres chegar aos bancos universitários, não permite aos pobres conviver com os ricos como entre iguais, não permite a interação e a ascenção social. Tendo vindo de uma família pobre, tenho consciência de como o contato com uma universidade e com as pessoas que por lá circulam pode mudar nossa consciência do mundo e de nós mesmos, como passamos a entender a realidade de outra maneira, como ampliamos nossos horizontes. Ao frequentar uma universidade, descobre-se que existem outros mundos, outras perspectivas, outras profissões. Descobre-se que se pode viver de outra maneira. Mas o que nossa educação faz é justamente impedir que isso aconteça.

Achamos que estamos incluindo porque nossos pobres agora podem consumir, vão a shoppings, compram celulares caríssimos e TVs ainda mais. Têm carro, moto. Mas como incluir de verdade se não lhes damos condições de serem pessoas mais plenas, mais conscientes dos próprios potenciais? Como incluir se continuamos promovendo uma educação apenas para quem tem dinheiro? Sinceramente, me sentindo desesperançado.

Obs: Os gráficos foram plotados por mim a partir da tabela disponível aqui. Foram excluídas da análise 376 escolas que estavam incluídas no nível de renda "Sem informação".

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