quinta-feira, 7 de maio de 2015

Manual prático de como debater com idiotas (sobre direitos mínimos a criminosos)

Por Igor de Oliveira Costa

Hoje à tarde tive uma discussão, no famigerado Facebook, que me lembrou, mais uma vez, o quão diversa é a espécie humana. O mesmo ser que construiu as pirâmides, os jardins suspensos da Babilônia, que inventou a escrita, a álgebra, que cruzou os oceanos em barquinhos de madeira, que chegou à lua e inventou o computador e a neurociência... Essa mesma criatura é capaz de dizer as maiores asneiras e, pior de tudo, ser incapaz de compreender o raciocínio lógico mais pífio. Pensando nisso, escrevi esse pequeno manual de como discutir com idiotas – na verdade, a melhor estratégia é nunca discutir com um idiota, porque eles são verdadeiramente invencíveis, mas, se você, como eu, também é um cabeça dura, pode ser que o que direi abaixo tenha alguma utilidade.
Como esse é uma manual prático, vou argumentar com dois exemplos, tirados da minha triste experiência de hoje. O tema do debate era “por que defender bandidos”, no sentido de “por que garantir às pessoas que cometem crimes alguns direitos mínimos”, como uma cela limpa, três refeições diárias e o direito à vida, à integridade física e à integridade moral. Dito isso, vamos ao Manual.

A primeira regra para discutir com idiotas é: faça um desenho!

Deixe seu raciocínio o mais simples possível, e, ainda assim, ele vai te acusar de coisas que você não disse. Mas não se afobe, afinal, você, como eu, foi burro o suficiente para entrar num debate com idiotas. Mas vamos ao exemplo:

O primeiro motivo pela qual “defendo bandido” é porque acredito que o que causa a violência e a criminalidade seja, antes de tudo, a desigualdade social.

Quando digo que desigualdade social gera violência e criminalidade, não estou dizendo que pobre é bandido. Explico o que quero dizer com um exemplo simples. Imagine uma sociedade com uma suposta população de 100 habitantes. Admitamos que alguns seres humanos, realmente, tenham uma índole ruim, que sejam preguiçosos e que prefiram roubar e matar a ter que trabalhar para conseguir as coisas (estou só supondo, veja bem, mas acredito que as pessoas tenham lá suas diferenças). Digamos que esses sejam 1% da espécie humana. Agora, digamos que algumas pessoas sejam excluídas do convívio social, que tenham acesso apenas às mínimas condições para a sobrevivência, e, ainda assim, tendo que trabalhar 16 horas por dia, todos os dias, sem tempo para diversão, família, nada. Isso quando conseguem um emprego. Essas pessoas, obviamente, têm duas opções: ou aceitam essa condição degradante ou?... Ou encontram um jeito de sobreviver, provavelmente o crime. Suponhamos que apenas 5% dessas que foram excluídas escolham o caminho do crime.

Agora, peguemos a nossa sociedade de 100 habitantes sem qualquer desigualdade social. Nela, apenas teríamos, estatisticamente falando, aceitando as premissas acima, 1 criminoso (1% da população que naturalmente má). Agora, suponhamos que metade dessa população seja de ricos e metade de pobres (os excluídos do parágrafo acima). Então, se 5% dos pobres vão escolher o crime, teremos 2 criminosos que “escolheram” o crime devido à pobreza (5% de 50 é 2,5, mas arredondei para baixo). Agora, se tivermos uma sociedade em que a renda está altamente concentrada nas mãos de uns poucos (10 ricos e 90 pobres, por exemplo), teremos, pelo mesmo raciocínio, 4 criminosos devido à desigualdade social (5% de 90 é 4,5). Então, com o aumento da desigualdade social, aumenta-se a violência a criminalidade. Então, se queremos acabar com a criminalidade, temos que reduzir a desigualdade social como passo principal.

O raciocínio é tão simplório que chega me dar dor ter que expô-lo. E é óbvio, portanto, que não estou dizendo que pobre é bandido. Não seja idiota de afirmar isso sobre o meu discurso, porque eu não sou idiota o suficiente para dizer uma besteira dessas.

A segunda regra para discutir com idiotas é: não confunda seus desejos pessoais com raciocínio!

Vamos ao exemplo:

Um outro motivo importante pelo qual “defendo bandido” é porque acredito que os valores/sentimentos/desejos individuais não podem reger o convívio social.

Que fique claro, desde já, que tenho raiva de quem mata, estupra, rouba, fere, etc., mas nem por isso tenho direito de matar, estuprar, roubar, ferir quem age assim. E quando falo isso, estou defendendo os meus próprios interesses. O raciocínio é simples: se alguém me odeia, terá ele o direito de me matar? Eu, por exemplo, odeio os idiotas, alguém vai defender o direito de eu atropelá-los aos montes no sinal de trânsito? Óbvio que não! Então, é óbvio que esse argumento não faz o mínimo sentido, isso porque as pessoas odeiam coisas diferentes. Uns odeiam idiotas. Outros odeiam carecas. Outros odeiam jiló. O que faremos, nos mataremos a todos?

Você não entendeu nada, me dirá o idiota, estou falando que devemos matar e maltratar apenas aqueles que cometeram crimes. A esse poderemos punir com a morte. Querido idiota, a noção de crime é relativa. Já foi crime ser comunista, já foi crime ser gay (veja o caso de Allan Turing, que até virou filme, ou o de Oscar Wilde), já foi crime ser cristão (no Império Romano). E se se tornar crime ser professor? Protestar na rua? Comer jiló? Escrever textos contra os idiotas? Terei que ser eu punido com a morte? Pior: imagine que se torne crime ser idiota. O que será de você, estimado idiota? Poderemos matá-lo? Não! Por isso defendo bandido, porque, quando faço isso, garanto condições mínimas de dignidade para todos aqueles que são humanos como eu e você.

Agora, se, mesmo assim, você, idiota, ainda não entendeu, então não tenho mais nada para dizer. E isso só prova o que Mario Quintana já expressou muito bem: a burrice é invencível!

Um comentário:

  1. Nossa! Quanto tempo não leio seus textos...rs
    Igor, eu já me arrependi muitas vezes de começar uma discussão com um idiota. Não que eu me orgulhe disso, mas pela minha saúde (porque esse tipo de discussão me estressa bastante), estou evitando falar sobre certas coisas e expressar minha opinião quando alguém toca no assunto. E geralmente essas discussões são sempre no facebook. Eu penso duas vezes antes de publicar uma opinião porque sempre terá um ofendido que venha se meter na minha publicação. Se bem que a onda dos ofendidos comentarem nas minhas publicações ou, pior ainda, postarem indiretas diminuiu um pouco depois que eu publiquei uma nota esclarecendo que o facebook era MEU e eu postava o que eu quisesse. Ainda assim, publico umas coisas já preparada se alguém vier reclamar. Quando estou sem paciência, não respondo o comentário e deixo lá para todos verem que foi ignorado (rs).

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