quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

De novo, o Feminismo

Por Igor de Oliveira Costa

Se é para começar, vamos começar pelo princípio. E, no princípio, era o verbo. E o verbo, queridas autoras feministas, está errado ou, pelo menos, confuso. Em primeiro lugar, porque é preciso tornar claras as definições, como o fiz nesse texto em que discuti Feminismo. Segundo a autora desse texto aqui (recomendo muito que você o leia antes de prosseguir), haveria uma visão equivocada do que seria o machismo: segundo essa visão, machismo não seria apenas uma "…opinião de que homens sejam superiores às mulheres…", mas seria uma espécie de 'crença' que se perpetua no patriarcado, crença essa que permitiria às pessoas, ditas machistas, oprimirem as mulheres. Apesar de eu não saber exatamente a diferença filosófica precisa entre “crença”, “opinião” e “ideia”, vou continuar expondo o raciocínio da autora. Segundo ela, portanto, uma mulher não poderia oprimir uma outra mulher, porque, com isso, estaria oprimindo a si mesma. E ninguém é, como ela diz em outra passagem, o forjador dos próprios grilhões.

(Vejam bem, estimadas leitoras, estou tentando organizar mais ou menos o argumento da autora, como o entendi. E fazendo de tudo para ignorar as petições de princípio mais estapafúrdias, como essas: “Ela [a mulher] não tem esse poder [de oprimir a si mesma], porque mulheres não têm esse poder."– mas... hein?!; e "João não tem poder suficiente para executar essa homofobia contra si próprio, simplesmente porque a sociedade não lhe deu esse poder." – hum... Então tá! Sejam compreensivos comigo, por obséquio!).

Então, se eu entendi direito, a autora está dizendo que os membros que pertencem às “classes” oprimidas não podem ser, eles mesmos, opressores dessas classes. Aqui, acho, está uma confusão da autora, que ela própria acaba por deslindar em outras partes do texto, sem sequer perceber que está sendo contraditória. Quando ela diz que racismo “é uma opressão sistemática de um sistema [Hein!? Sistemática do sistema???] que se beneficia mantendo pessoas negras na marginalidade" ou que gordofobia trata “de como pessoas gordas são sistematicamente excluídas de empregos e tidas como pessoas doentes, feias, nojentas e completamente ojerizadas por médicos e matérias de revista", ela está colocando uma linha divisória clara para definirmos o machismo, que seria, segundo essa própria visão – e não segundo o que ela colocou antes –, uma opressão sistemática que enquadraria as mulheres em uma categoria de inferioridade, fazendo com elas sejam, como no caso dos gordos, vistas como “erradas”, “inferiores”, “incapazes”, “menos competentes”, etc.

Se é assim, existiriam dois aspectos importantes a serem abordados na questão desses “ismos” e “fobias”: (i) o seu lado fenômeno sócio-histórico, parte de um conjunto de crenças e valores construídos ao longo de séculos, pautados na religião, nos preconceitos sociais, etc. O machismo, portanto, seria um fenômeno social que transcende os indivíduos e se situa no nível da sociedade. Para nós, que nascemos nessa sociedade machista, não cabe escolhermos ou não sermos machistas. O machismo nos perpassa a todos, nos atravessa a todos, porque nos foi incutido desde o princípio da existência como uma crença, como uma ideia, como uma opinião tomada como verdadeira, que nos foi transmitida explicita e implicitamente por comportamentos e expressões e atitudes de nossos pais, mães, tios, amigos, etc. Por outro lado, se o machismo é transmitido por essas atitudes, ele (ii) é também um fenômeno individual, porque ele apenas se materializa nas atitudes e comportamentos individuais.

É claro que existe uma crença geral, nas sociedades judaico-cristãs-ocidentais, de que a mulher é inferior ao homem, mas essa crença só se materializa nas atitudes e comportamentos dos indivíduos. Frequentemente, dizemos (ou apenas pensamos, ou mesmo apenas sentimos como uma verdade que temos até inclusive vergonha de admitir) que “mulher no volante é perigo constante”. Essa seria, portanto, uma atitude machista. Como seriam atitudes machistas oferecer menores salários a mulheres no mesmo posto de trabalho, ou julgar de maneira diferenciada o comportamento sexual feminino, ou mesmo pensar que mulheres não podem ser executivas de empresas por serem mulheres. Esses são, creio, típicos exemplos de atitudes machistas e quem as toma está sendo machista, ou seja, agindo pautado por aquela coisa que chamei de “crença” ou “ideia” que nos transcende: nesse caso, o machismo.

Então, o meu ponto é o seguinte: quando eu, homem, hétero, branco e sei lá mais o quê, faço um julgamento negativo do comportamento sexual de uma menina (“Nossa! Que vagabunda! Deu pra todo mundo da empresa!”); quando eu faço isso, estou sendo machista. Então, se uma colega de trabalho faz o mesmo julgamento, proferindo a mesma frase e todas as coerções sociais que ela carrega, ela está, também, sendo machista. Dizer que ela não é machista e que apenas “perpetua as opressões do machismo” – ou qualquer besteira desse tipo – é apenas uma maneira ingênua de mascarar a verdadeira realidade das questões sociais. Como a autora diz em seu texto, mas não aplica essa ideia na prática, as pessoas não estão divididas entre as “boazinhas” e as “malvadas”. As mulheres são, sim, oprimidas enquanto “classe”, enquanto um grupo de pessoas com características – físicas, biológicas, sociais, etc. – comuns. No entanto, elas, como indivíduos, podem ser, sim, opressoras de outras mulheres, pois podem negar a essas salários adequados, posições sociais adequadas, podem fazer julgamentos diferenciados do comportamento sexual. Podem, enfim, tomar atitudes que são opressoras. Talvez, ao fazerem isso, estejam, no fundo e a longo prazo, “jogando contra o próprio time”, mas dizer que esse tipo de atitude não é opressora, e que não é pautada pelo machismo, é negar o raciocínio lógico mais pífio.

Inclusive, assim como os homens podem obter benefícios sociais ao discriminarem as mulheres, as mulheres podem, também, obter benefícios sociais ao discriminarem outras mulheres. Seria ingenuidade – ou uma “má fé do caralho!”, como diria a autora do texto – dizer que não. Porque as mulheres, ao excluírem da convivência social as “piranhas”, ao tratarem outras mulheres como “periguetes”, ao serem machistas, recebem os “benefícios” sociais que a essas é negado ou que as opressoras arrancam das oprimidas. Nenhum homem quer namorar/casar com uma “mulher rodada”, preferindo as que são “certinhas”. E, convenhamos, é ou não é roubar de outra um “benefício” social – ou, pelo menos, algo que é tomado, na nossa sociedade, como um benefício? No entanto, nesse mesmo processo de obter “benefícios” sociais, ou seja, ser a menina com que todos os caras querem namorar e não a menina que todos os caras querem tratar como objeto; nesse mesmo processo ela pode acabar tendo que reprimir um comportamento sexual que gostaria de ter, digamos, sei lá, se impedindo de fazer sexo casual. Então, o que temos é que a sua atitude é uma via de mão dupla: ao mesmo tempo em que recebe benefícios sociais, ela perpetua um tipo de comportamento pautado pelo machismo. O que só mostra que o mundo é muito menos preto no branco e bem mais cheio de tons de cinza.


Então, querida leitora feminista, pare de olhar para as questões sociais e buscar nelas apenas sua visãozinha de mundo maniqueísta, onde existem os “opressores malvados” e os “oprimidos bonzinhos”. Me desculpe, mas não é assim que as coisas funcionam. O machismo – como o racismo, como a homofobia, como a gordofobia – são complexas dinâmicas sociais, pautadas em crenças arraigadas na sociedade e que ultrapassam o desejo dos indivíduos. Indivíduos esses que estão o tempo todo perpetuando a discriminação e a opressão com suas atitudes cotidianas, quer eles queiram, quer não. Lutar contra o machismo é uma tarefa constante, do dia a dia de todos, homens e mulheres, de modo a evitarmos tomar atitudes machistas e, assim, evitarmos propagar às gerações futuras essa crença social que nos é intrínseca, de modo a evitarmos, no futuro, criar uma sociedade que seja ela também machista. Por isso, querida colega feminista, usando de suas próprias palavras “Não se isente de sua responsabilidade, não finja que não ganha com esse sistema, não diga que o problema não é com você. Porque é. […] Você também faz parte do problema. Não esqueça disso." Porque todos nós fazemos parte do problema. E não adianta se fazer de mocinho e se sentir moralmente superior aos bandidos, divulgando como a sua consciência está limpa por “lutar contra as opressões sociais”. No fundo, somos todos farinha do mesmo saco.

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